Sempre
que penso num arqueólogo
abrindo uma dessas caixas
em que se põem documentos,
jornais, objetos e curiosidades
da nossa época justamente
para serem descobertas no
futuro, imagino que ele pode
ter duas reações:
uma que nos condena e outra
que nos elogia. Elogio é
o hipotético arqueólogo
sacudir e a cabeça
e dizer “Bons tempos
aqueles” porque o seu
tempo será muito pior
do que o nosso. O contrário
é ele sacudir a cabeça
e comentar o nosso atraso,
e perguntar-se como conseguimos
sobreviver e - mais espantoso
ainda - como sua sociedade
superior pode ter evoluído
desta insensatez e deste caos.
Ou ele nos invejará
ou nos desprezará.
Alguns
itens da caixa por certo o
deixarão perplexo.
Jornal, por exemplo. O que
é isso? dirá
ele. E dará boas risadas
com os telefones celulares,
resquícios de uma época
em que as pessoas ainda não
tinham transmissores e receptores
implantados no crânio
ao nascer.
E
o Brasil? O que ele pensará
do Brasil? Que interpretação
do Brasil deveria ser incluída
na caixa para ele entender
o que ocorria no país
naquele longínquo começo
do século 21? Minha
contribuição
começaria com um episódio
real, que aconteceu comigo.
Nada demais, uma pequena cena
do cotidiano que só
serviu como mote para uma
crônica que escrevi.
Eu
caminhava por uma calçada
e veio uma bola na minha direção.
A bola tinha escapado do controle
de um garoto que, de longe,
gritou: “Devolve!”
Não era um pedido,
era uma ordem. A mãe
do garoto ouviu e perguntou
se aquilo era jeito de falar
com alguém. O garoto
então se corrigiu.
Gritou “Adevolve!”
Por alguma razão, achou
que, colocando um “a”
no início da palavra,
o pedido ficava mais educado.
Na crônica, eu dizia
que, de certa maneira, a sociedade
brasileira estava fazendo
o contrário do garoto.
Todas
as manifestações
de inconformidade com a crise
social brasileira, culminando
com a eleição
do Lula, tinham sido educados
pedidos para que a minoria
que nos domina adevolvesse
o país à sua
maioria excluída. E
que não dava para imaginar
como seria quando acabasse
a boa educação,
quando uma sociedade desesperada
exigisse o fim da incompetência
criminosa que lhe sonega saúde,
segurança, educação
e emprego há anos,
para dar lucro a banco, garantia
a especulador e boa vida a
poucos. Quando “devolvam!”
virasse um grito de guerra.
O
Brasil sempre foi de uma minoria
autoperpetuada, mas nunca,
no passado, a maioria teve
como agora uma noção
tão nítida do
seu banimento interno, do
seu exílio sem sair
do lugar. A eleição
do Lula significou, entre
outras coisas, isso. O neoliberalismo
triunfante, além da
revolução semântica
que transformou insensibilidade
social em virtude empresarial,
tinha trazido uma espécie
de redenção
história para o nosso
patriciado, que afinal só
abolira a escravatura para
imitar os outros e para não
ser chamado de retrógrado.
Como ser retrógrado
passou a ser moderno, nos
oito anos de governo Fernando
Henrique, a distância
entre minoria e maioria aumentou.
E como Lula, frustrando esperanças,
continuou a política
econômica do governo
anterior, o que eu poderia
dizer ao arqueólogo
do futuro é que talvez
estejamos vivendo no Brasil
os últimos anos de
paciência. Embora ninguém
pareça ter o menor
temor de que o que não
adevolverem por bem terão
que devolver por mal.
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